Agosto Lilás: enfrentar a violência é também fortalecer a autonomia das mulheres

Agosto Lilás é mais do que um mês de mobilizações. É um grito coletivo por justiça, por dignidade e por vidas que insistem em florescer mesmo diante da violência cotidiana. É uma convocação para olharmos de frente para as estruturas que mantêm tantas mulheres presas ao medo, ao silêncio e à dependência.

No Brasil, o feminicídio ainda é um dos rostos mais cruéis da desigualdade de gênero. Em 2024, mais de 1.400 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Na Bahia, foram 106 casos, a maioria de mulheres negras, jovens, periféricas. Para além dos números, estão histórias interrompidas, filhos órfãos, famílias devastadas, comunidades em luto.

Mas é preciso dizer com todas as letras: a violência contra as mulheres não começa com o tapa ou o tiro. Ela começa na negação de direitos, no desemprego estrutural, na sobrecarga do cuidado, no desmonte das políticas públicas, na naturalização do controle sobre os corpos e desejos femininos.

Muitas vezes, a pergunta que se ouve é: “por que ela não saiu?” A resposta, quase sempre, envolve o medo — mas também a dependência econômica. Sem renda, sem apoio, sem creche, sem rede, sair não é opção. É risco. É desamparo.

É por isso que, neste Agosto Lilás, é urgente reconhecer o papel estratégico da Economia Popular Solidária como caminho concreto para a autonomia das mulheres. Em várias regiões do Brasil — e especialmente na Bahia — são as cooperativas, os grupos produtivos, as cozinhas comunitárias, as redes de troca e de afeto que têm sido espaços de acolhimento, geração de renda e reconstrução de trajetórias.

Mulheres que antes estavam isoladas, agora compartilham saberes, produzem juntas, constroem formas autônomas de organização do trabalho. Em muitos territórios, a economia solidária tem sido o primeiro passo para sair do ciclo da violência, ao oferecer não apenas renda, mas pertencimento, autoestima, poder de decisão.

Mas isso não acontece por mágica. A Economia Solidária só se torna política de enfrentamento à violência quando é valorizada, financiada e incluída nos planos de governo. É preciso reconhecer esses empreendimentos como parte da rede de proteção das mulheres. Apoiar sua formalização, acesso a crédito, infraestrutura, formação e comercialização. Incorporá-los nas estratégias de enfrentamento à pobreza, de desenvolvimento local e de políticas para as mulheres.

Ao mesmo tempo, o Estado precisa garantir a presença de serviços públicos efetivos: Delegacias Especializadas, Casas da Mulher Brasileira, Defensorias, medidas protetivas ágeis, escuta qualificada. Precisamos de políticas integradas que articulem proteção, cuidado e autonomia. Não há como enfrentar a violência se continuarmos tratando as mulheres como problemas a serem gerenciados, e não como sujeitos políticos com direito a viver plenamente.

Agosto Lilás é também um convite à solidariedade. À construção de redes que acolhem, informam, denunciam, protegem. De nada adianta a denúncia se a mulher volta para casa sem saber onde dormir, o que comer, com quem deixar os filhos. Precisamos falar de moradia, de educação, de trabalho, de renda. De economia feminista. De justiça social.

Porque enfrentar a violência contra as mulheres é, antes de tudo, uma escolha política. E a sociedade que escolhe proteger suas mulheres está dizendo a que veio. Que não aceita mais perder vidas para o machismo. Que acredita que autonomia é condição para a liberdade. E que sabe que construir outro mundo é possível — um mundo onde viver seja direito e não privilégio.

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