



O Brasil está diante de uma encruzilhada histórica. A crise climática já é realidade, afetando especialmente os territórios e populações mais vulneráveis. Diante desse cenário, não basta acelerar uma transição energética — é preciso garantir que ela seja justa e solidária. E isso só será possível se o país avançar em duas frentes inseparáveis: a construção de um plano nacional de transição energética justa e o reconhecimento da economia popular solidária como um modelo estratégico de desenvolvimento econômico, ambiental e social.
Durante anos, o debate sobre mudanças climáticas foi monopolizado por soluções técnicas e modelos econômicos concentradores. O risco disso é enorme: substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis sem mudar as bases de desigualdade que sustentam o atual modelo de desenvolvimento. A transição energética não pode repetir a lógica excludente do passado. Deve ser um processo que promova trabalho digno, soberania energética, respeito à diversidade dos territórios e redistribuição de oportunidades.
Para isso, o Brasil precisa de um plano nacional articulado, com metas claras e participação social garantida. Uma transição justa não é apenas uma mudança de matriz energética — é uma transformação estrutural que exige investimento em educação, inovação social, infraestrutura nos territórios populares e apoio técnico e financeiro aos grupos historicamente excluídos. Não haverá justiça climática se os benefícios da “nova economia verde” ficarem concentrados nas mãos de poucos.
É nesse contexto que entra o papel central da Economia Popular Solidária. Não como um apêndice do sistema formal, mas como uma proposta concreta de desenvolvimento inclusivo e sustentável. Presente em todo o país, essa economia é feita por cooperativas, associações, redes de comércio justo, empreendimentos familiares e comunitários, organizados com base na autogestão, na solidariedade, no cuidado com os bens comuns e na sustentabilidade ambiental.
São catadores, agricultores, pescadores, costureiras, marisqueiras, povos indígenas, quilombolas, jovens e mulheres que movem, com criatividade e resistência, uma economia que resiste ao colapso do modelo dominante. Essa economia já funciona, mesmo sem o devido reconhecimento estatal. E quando apoiada, transforma.
O recente avanço com a Lei Paul Singer (Lei nº 15.068/2024) representa um marco simbólico importante, pois reconhece juridicamente os empreendimentos de economia solidária como sujeitos econômicos e políticos, com direito à política pública específica. Porém, o que ainda falta é o fortalecimento da Política Nacional de Economia Solidária, com orçamento próprio, regulamentação do Sistema Nacional de Economia Solidária (Senaes) e acesso garantido a crédito, compras públicas, assistência técnica e previdência solidária.
Ao reconhecer e fortalecer a economia popular solidária, o Brasil poderá promover uma transição energética que gere trabalho, renda, autonomia e dignidade — principalmente nas periferias urbanas e nas áreas rurais. Mais do que isso, essa economia já apresenta soluções práticas para um modelo energético descentralizado e democrático: energia solar comunitária, tecnologias sociais de baixo custo, gestão coletiva da água e produção agroecológica em rede.
Por outro lado, é urgente revisar e ampliar o debate sobre a política nacional de crédito de carbono, para que ela seja instrumento de justiça climática e redistribuição ambiental. O atual desenho tende a beneficiar os grandes emissores e investidores do mercado financeiro, excluindo os verdadeiros protagonistas da preservação: comunidades tradicionais, agricultores familiares e empreendimentos populares que atuam na linha de frente da sustentabilidade há décadas. Esses sujeitos precisam estar no centro da política climática, e não à margem.
Não haverá transição energética justa sem redistribuição de poder, democratização dos recursos e participação popular real. E não haverá desenvolvimento sustentável enquanto a economia solidária continuar sendo tratada como invisível ou secundária.
Chegou a hora de construir, com coragem e protagonismo coletivo, um novo pacto pelo desenvolvimento do país. Um pacto que coloque a justiça climática e a inclusão social no centro da política energética. Que reconheça a diversidade territorial do Brasil não como obstáculo, mas como potência civilizatória. Que valorize quem sempre cuidou da terra, da água e das pessoas. Um pacto que entenda, enfim, que não basta mudar as fontes de energia — é preciso mudar o modelo de sociedade.



