Economias Solidárias en Transformação: Bordando um Legado Fundacional – Profª. Heloisa Primavera

🌿 Resumo da Aula Magna

A Aula Magna iniciou com um convite à reflexão sobre nossa própria presença: por que estamos aqui? A partir dessa pergunta, a professora Heloisa nos conduziu em um percurso que transitou entre o paradigma da escassez e o paradigma da abundância, chamando atenção para a necessidade de reimaginar nossas práticas sociais e econômicas.

Inspirada em pensadores e educadores, ela retomou Paulo Freire e sua ideia de ensenhagem, lembrando que aprender e ensinar é sempre um ato coletivo. Em seguida, trouxe Enrique Pichon Rivière, que nos ensinou sobre a força dos grupos operativos, e Waldemar de Grégori, com sua teoria triádica do poder, que amplia a compreensão das relações de força. Reapareceram ainda as vozes de Darcy Ribeiro, Silvio Gesell, Bernard Lietaer e Margrit Kennedy, todos desafiando os modelos dominantes e apontando para novas formas de pensar moeda, valor e sociedade. Nesse fio, a aula reconheceu também o legado de Paul Singer, com a afirmação de que ninguém se liberta sozinho, e de Kevin Kelly, que sistematizou leis para lidar com a complexidade viva.

Entre citações e exemplos, a professora destacou as figuras invisíveis – mulheres como Arismar, Maria, Paulina, Norma, Margarida, Emma, Margrit, Elinor, Bénédite – lembrando que foram elas que sustentaram, em silêncio, muitos processos comunitários e solidários.

A segunda parte da aula mergulhou em metodologias participativas. Foram apresentadas ferramentas como o Prisma de Identificação e o Iceberg da Tarefa, que ajudam a reconhecer quem somos e como estamos no grupo. Também se discutiu a condução de jogos de poder, com papéis rotativos, para garantir a autogestão e o equilíbrio das relações. O Projeto Colibrí apareceu como metáfora de abundância, responsabilidade e compromisso com resultados concretos. E, para lidar com sistemas complexos, recordou-se as nove leis de Kelly, que nos orientam a crescer por pedaços, honrar os erros, cultivar retornos crescentes e aceitar que o próprio processo de mudança é mutável.

Em tom de memória viva, a aula resgatou a experiência dos clubes de trueque na Argentina. Criados nos anos 1990, em meio à crise e ao desemprego, permitiram que milhões de pessoas trocassem bens e serviços com base em créditos comunitários. No auge, em 2001, cerca de 6 milhões de argentinos encontraram nessa rede alternativa uma forma de sustento. Apesar de seu posterior enfraquecimento, causado pela concentração e falsificação, a experiência deixou marcas profundas e inspirou iniciativas em toda a América Latina. No Brasil, o aprendizado se multiplicou em clubes de trocas, mercados solidários e nos 182 bancos comunitários de desenvolvimento, alguns inclusive com moedas locais digitais e pagamentos de renda básica.

A narrativa concluiu lembrando que o dinheiro não é algo dado, mas sim um acordo social. Quando se reconhece isso, abre-se espaço para compreender que novas moedas, sistemas de trocas e redes de cooperação podem ser criados, especialmente quando a crise revela o limite do modelo hegemônico. O desafio, segundo Heloisa, é evitar que essas inovações reproduzam velhos vícios, fortalecendo a lógica da abundância compartilhada.

Assim, a aula se encerrou como começou: com um convite. Um convite a repensar nossas práticas, a reconhecer as experiências já vividas em Abya Yala e a bordar, juntos, um legado fundacional da Economia Solidária.

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