

Há histórias que o Brasil não costuma contar. Histórias que nascem no lixo, atravessam a dor e chegam aos espaços de decisão sem perder a memória do chão. A trajetória de Manoel Basílio, presidente da COOCAI (Cooperativa dos Catadores de Inhambupe), tesoureiro da UNISOL Bahia, Agente do Programa Paul Singer no Territórios em Ação – Litoral Norte e coordenador do CODETER Litoral Norte, é uma dessas histórias que deslocam a lógica tradicional do poder.
Na 91ª edição do Boletim da Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (SENAES), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, seu nome aparece como liderança da reciclagem. Mas por trás da publicação institucional existe uma biografia marcada por uma infância que nenhum país deveria permitir.
Aos seis anos de idade, Manoel já frequentava lixões na região metropolitana de Salvador. Buscava brinquedos. Buscava comida. Buscava qualquer possibilidade de sobrevivência. O que encontrou foram restos daquilo que a sociedade descarta — objetos, alimentos, vidas. Teve contato com cenas que moldariam sua consciência para sempre. Enquanto muitos preferem não olhar para os resíduos que produzem, ele cresceu dentro deles.
A maioria das histórias que começam assim terminam em silêncio. A dele não.
Formou-se, tornou-se técnico em segurança do trabalho, poderia ter seguido uma trajetória estável e distante daquela realidade. Mas fez o caminho inverso. Em 2004, deixou o emprego em uma multinacional para organizar catadores e catadoras. Não foi uma escolha confortável. Foi uma decisão política. Ele sabia que a reciclagem, no Brasil, não é apenas uma atividade ambiental: é sobrevivência, é exclusão histórica, é luta por reconhecimento.
A primeira tentativa de cooperativa enfrentou perseguição do poder público local. Faliu. Famílias voltaram à vulnerabilidade. O peso da responsabilidade caiu sobre ele com violência emocional. Houve culpa. Houve medo. Houve desespero. Quase houve desistência, mas houve resistência.
Porque Manoel entendeu algo fundamental: o problema não era a capacidade dos catadores. O problema era a estrutura que insiste em privilegiar grandes contratos empresariais enquanto ignora quem sustenta, diariamente, a dimensão ambiental da economia brasileira.
Em Inhambupe, a reconstrução começou com organização coletiva. Hoje, a estrutura da associação de catadores do município conta com galpão, prensas, planejamento de ampliação e iniciativas que vão além da coleta seletiva. Produzem adubo orgânico, desenvolvem farinha de ossos enriquecida, implementam programas de troca de óleo usado e incentivam a destinação correta dos resíduos. Não é apenas reciclagem. É economia circular com protagonismo popular. É geração de renda onde antes havia abandono.
Sua atuação ultrapassou os limites do município. Como tesoureiro da UNISOL Bahia, Manoel contribui para a articulação estadual da Economia Solidária, fortalecendo redes de empreendimentos populares. Como Agente Paul Singer no projeto Territórios em Ação – Litoral Norte, atua diretamente no fortalecimento produtivo e organizativo de grupos da economia popular. Como coordenador do CODETER Litoral Norte, participa da construção do desenvolvimento territorial com participação social. Ele transita entre a base e as instâncias de formulação sem abandonar o chão que o formou.
No Boletim da SENAES, sua fala ecoa uma crítica que precisa ser ouvida: prefeituras preferem pagar milhões a grandes empresas enquanto cooperativas sobrevivem sem apoio mínimo. A denúncia não é ressentimento. É análise estrutural. Os catadores reduzem custos públicos, diminuem impactos ambientais, fortalecem cadeias produtivas e promovem inclusão social — e, ainda assim, lutam por reconhecimento básico.
A presença de Manoel em uma publicação nacional não é um gesto simbólico isolado. É um marco político. É a evidência de que a liderança popular qualificada nasce nas periferias, nos territórios, nas cooperativas que enfrentam o abandono cotidiano. É a confirmação de que a Economia Popular e Solidária não é discurso alternativo: é proposta concreta de desenvolvimento.
Há algo profundamente transformador no fato de que um menino que buscava brinquedos no lixo hoje participa da construção de políticas territoriais. Há algo que desmonta hierarquias quando um catador ocupa espaços de formulação, presta contas, organiza redes, articula estratégias e fala de desenvolvimento sustentável com a autoridade de quem viveu a ausência dele.
Essa trajetória não é sobre superação individual. É sobre transformação coletiva. É sobre organização como resposta à exclusão. É sobre afirmar que não há transição ecológica possível sem justiça social. Não há política ambiental séria sem os trabalhadores da reciclagem organizados. Não há desenvolvimento territorial sem participação popular.
A história de Manoel Basílio é a história de milhares de catadores e catadoras invisibilizados pelo modelo econômico que concentra renda e descarta vidas. Sua presença no Boletim da SENAES é uma fissura nesse modelo. É um lembrete de que o Brasil real não está nas grandes corporações de limpeza urbana, mas nos galpões onde mulheres e homens organizam resíduos e constroem dignidade.
Quando alguém que cresceu no lixão ajuda a formular o desenvolvimento territorial, o país é obrigado a se olhar no espelho.
E talvez, finalmente, comece a mudar.



