Da mandioca ao óleo residual: projeto fortalece produção, renda e organização comunitária no interior da Bahia

INHAMBUPE E ESPLANADA (BA) — Entre os dias 18 e 28 de agosto, comunidades rurais, grupos produtivos, cooperativas, artesãs e trabalhadores da reciclagem participaram de uma série de ações voltadas ao fortalecimento da produção, da organização coletiva e da geração de renda no Litoral Norte e Agreste Baiano.

As nove agendas foram realizadas pelo projeto Territórios em Ação, executado pela Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários da Bahia (UNISOL Bahia) em parceria com a Petrobras. As atividades reuniram formação, assessoria técnica, diagnósticos participativos, planejamento produtivo, regularização institucional e construção de estratégias de comercialização.

As ações chegaram às comunidades de Flechas, Saquinho, Timbó, Mulungu, Reunidas Palame, São Francisco e Cachoeira do Ninizio, além da Cooperativa COOCAI e do Grupo de Artesãs de Inhambupe (GAI).

Para a presidenta da UNISOL Bahia, Anne Sena, a diversidade das agendas demonstra que o desenvolvimento dos territórios precisa partir das capacidades, dos conhecimentos e das necessidades reais de cada comunidade.

“Estamos falando de famílias que produzem alimentos, mulheres que transformam seus conhecimentos em trabalho e renda, catadores que prestam um serviço ambiental essencial e comunidades quilombolas que preservam sua história e sua relação com a terra. O Territórios em Ação reconhece essa diversidade e constrói soluções junto com as pessoas. Nosso compromisso é fazer com que cada iniciativa se transforme em mais autonomia, organização, renda e dignidade para quem vive e trabalha nesses territórios”, afirmou.

Agroecologia mobiliza famílias

Nas comunidades de Flechas e Saquinho, em Inhambupe, as atividades prepararam os grupos para a implantação do Sistema PAIS ( Produção Agroecológica Integrada e Sustentável).

As famílias participarão de trilhas formativas sobre produção agroecológica, organização coletiva, planejamento, preparação da área, definição dos cultivos e manejo das futuras unidades. A previsão é que as formações ocorram entre setembro e outubro, permitindo avançar com as implantações ainda no segundo semestre de 2026.

Em Esplanada, a mobilização para o Sistema PAIS alcançou as comunidades Reunidas Palame e São Francisco. Somente em Reunidas Palame, ao menos 33 famílias manifestaram interesse em participar da iniciativa.

Além das trilhas formativas, as comunidades serão estimuladas a integrar feiras, festivais, seminários, intercâmbios e espaços de governança do projeto, como o Conselho Gestor e as ações relacionadas ao Fundo Rotativo.

Reciclagem gera renda e protege o ambiente

A reciclagem também ocupou lugar de destaque nas agendas. Em Inhambupe, a COOCAI iniciou a construção de uma estratégia para retomar suas atividades após aproximadamente três meses de paralisação.

A assessoria técnica identificou como prioridades a coleta, o tratamento e a comercialização de Óleo e Gordura Residual (OGR), além da produção de farinha de osso. A cooperativa dispõe de aproximadamente 2 mil litros de OGR em processo de comercialização.

Outra medida encaminhada foi a transferência das atividades para um novo galpão, o que poderá gerar uma economia mensal de aproximadamente R$ 800 com aluguel. O projeto também apoiou o diálogo com a Prefeitura de Inhambupe sobre a possível contratação e remuneração dos serviços ambientais e de coleta seletiva prestados pela cooperativa.

Na Comunidade do Timbó, o grupo que atua com OGR iniciou a organização de uma rotina de reuniões e assembleias, a elaboração de um regimento interno e a mobilização de novos participantes. Os setores jurídico e contábil do projeto também vão analisar a estrutura associativa existente para orientar a regularização do empreendimento.

“Não existe sustentabilidade ambiental sem justiça para quem realiza esse trabalho. Quando o óleo deixa de ser descartado de forma inadequada e passa a gerar renda, temos um exemplo concreto de como a economia solidária pode cuidar simultaneamente das pessoas e do território”, destacou Anne Sena.

Autonomia das mulheres

No Grupo de Artesãs de Inhambupe, a assessoria técnica trabalhou governança, gestão, prestação de contas, organização produtiva e mediação de conflitos.

As integrantes discutiram as responsabilidades da diretoria, a situação administrativa e financeira do empreendimento, a regularização documental e a organização do quadro associativo. Como resultado, o grupo programou uma reunião interna conduzida pelas próprias artesãs, sem a mediação direta da equipe técnica.

A iniciativa representa um avanço no exercício da autogestão e na construção da autonomia organizativa das mulheres.

“Autonomia econômica também significa ter acesso às informações, participar das decisões e assumir coletivamente os caminhos do empreendimento. Quando as mulheres conduzem a gestão, acompanham as contas e organizam a produção, elas fortalecem o grupo e ampliam seu próprio poder de escolha”, ressaltou a presidenta da UNISOL Bahia.

Mandioca, identidade quilombola e inovação

Na Comunidade do Mulungu, em Esplanada, a agenda articulou valorização da identidade quilombola e desenvolvimento da cadeia produtiva da mandioca.

A comunidade iniciou a preparação para a construção de sua Cartografia Social Quilombola, processo que deverá registrar memórias, saberes, espaços produtivos, referências culturais e elementos considerados importantes pelos próprios moradores.

Na área produtiva, o grupo discutiu melhorias no acondicionamento da farinha, a realização de um Estudo de Viabilidade Econômica e testes para desenvolver mandioca chips. A proposta busca agregar valor à matéria-prima e criar novas possibilidades de comercialização e geração de renda.

Produtos do território ganham novos mercados

Na Comunidade Cachoeira do Ninizio, o grupo Aquinizio definiu três linhas prioritárias para seu portfólio: sabonetes naturais em barra e líquidos, essências e esculturas artesanais produzidas com elementos da terra.

A próxima etapa será organizar descrições, imagens, embalagens, identidade visual, custos e preços. Os produtos serão preparados para uma futura loja virtual e também para comercialização em feiras, festivais e outros espaços presenciais.

“As peças e os produtos dessas comunidades não carregam apenas valor comercial. Eles expressam história, criatividade, conhecimentos e uma relação profunda com o território. Ampliar sua presença no mercado é também valorizar quem produz e preservar uma identidade que não pode ser apagada”, afirmou Anne Sena.

Próximas etapas

Os encaminhamentos construídos durante as agendas terão continuidade em setembro. Estão previstas novas trilhas formativas, acompanhamento técnico, monitoramento das ações pactuadas, análises jurídicas e contábeis, estudos de viabilidade e preparação das estruturas produtivas.

O trabalho seguirá orientado pelos princípios da economia popular e solidária, com participação comunitária, cooperação, autogestão e valorização dos saberes existentes em cada território.

Sobre o Territórios em Ação

O projeto Territórios em Ação é executado pela UNISOL Bahia em parceria com a Petrobras. A iniciativa oferece assessoria técnica, formação e acompanhamento a comunidades, grupos produtivos, associações e empreendimentos econômicos solidários, contribuindo para fortalecer a organização coletiva, a sustentabilidade produtiva e a geração de trabalho e renda na Bahia com mais de 51 empreendimentos.

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