





Este artigo resulta de uma pesquisa realizada no âmbito do Projeto Ecorecicla+, desenvolvido com apoio da Fundação Banco do Brasil e executado pela UNISOL Bahia, como parte das ações de contrapartida social previstas na parceria para fortalecimento da coleta seletiva com inclusão socioprodutiva.
RESUMO
Este artigo apresenta a análise do perfil socioeconômico, de saúde e das condições de trabalho de catadores e catadoras de materiais recicláveis, com base em 137 questionários aplicados no âmbito do Projeto Ecorecicla+. O estudo busca identificar vulnerabilidades sociais e ocupacionais, relacionando aspectos de raça, gênero, remuneração, uso de EPIs e acesso à saúde. A partir dos dados obtidos, são indicadas ações prioritárias para o fortalecimento das políticas públicas de inclusão socioprodutiva e promoção da saúde do trabalho nesse segmento.
Palavras-chave: catadores de recicláveis; saúde do trabalhador; economia solidária; vulnerabilidade social; políticas públicas.
- INTRODUÇÃO
A coleta de materiais recicláveis representa uma das principais estratégias de mitigação de impactos ambientais nas cidades brasileiras, promovendo a reutilização de resíduos e a redução da poluição urbana. Apesar de sua relevância socioambiental, o trabalho dos catadores e catadoras de materiais recicláveis segue marcado por invisibilidade, precariedade e exclusão das políticas públicas formais. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2012), os catadores são responsáveis por cerca de 90% de tudo o que é efetivamente reciclado.
1 Este artigo resulta de uma pesquisa realizada no âmbito do Projeto Ecorecicla+, desenvolvido com apoio da Fundação Banco do Brasil e executado pela UNISOL Bahia, como parte das ações de contrapartida social previstas na parceria para fortalecimento da coleta seletiva com inclusão socioprodutiva.
no país, ainda que a maior parte atue em condições insalubres, com baixa remuneração e sem acesso a direitos trabalhistas ou previdenciários.
Reconhecer esse segmento como estratégico para a economia circular, a justiça social e o enfrentamento das desigualdades são um desafio que demanda não apenas investimentos em estrutura e logística, mas também a produção de diagnósticos qualificados sobre a realidade desses trabalhadores. Nesse sentido, o Projeto Ecorecicla+ busca articular inclusão produtiva, fortalecimento de cooperativas e valorização do trabalho dos catadores por meio da geração de conhecimento e da proposição de ações estruturantes.
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa realizada com 137 catadores e catadoras, entre associados e autônomos, em diferentes territórios de atuação. A partir da aplicação de um formulário digital, foram coletadas informações sobre perfil socioeconômico, condições de saúde e trabalho, acesso a serviços públicos e percepção sobre direitos e reconhecimento institucional. A análise dos dados permite identificar padrões de vulnerabilidade, desigualdades interseccionais e apontar caminhos para a construção de políticas públicas integradas e participativas que promovam o bem-estar e a valorização desses sujeitos historicamente marginalizados.
- METODOLOGIA
Este estudo é de natureza quantitativa com abordagem descritiva, utilizando como instrumento principal de coleta de dados um questionário estruturado aplicado a uma amostra de 137 catadores e catadoras de materiais recicláveis, vinculados ou não a organizações de base solidária, como cooperativas e associações. A pesquisa foi conduzida no âmbito do Projeto Ecorecicla+, entre os meses de março e abril de 2025, abrangendo diferentes territórios de atuação no estado da Bahia.
A construção do instrumento de coleta foi orientada por princípios de pesquisa participativa (Thiollent, 2011), com base no diálogo prévio com lideranças do movimento de catadores, técnicos de assistência social e profissionais da saúde do
trabalhador. O questionário foi elaborado com perguntas fechadas e semiestruturadas, organizadas em três blocos principais:
- Informações sociodemográficas – idade, gênero, orientação sexual, raça/cor, escolaridade, estado civil, número de filhos, presença de deficiência, filiação religiosa;
- Condições de trabalho – local de atuação (rua, cooperativa, lixão, etc.), tempo de experiência na catação, carga horária diária, renda média mensal, vínculo com programas sociais, avaliação da remuneração, uso de equipamentos de proteção individual (EPIs);
- Saúde e segurança no trabalho – percepção sobre saúde física e mental, distúrbios do sono, acesso a serviços públicos de saúde, recebimento de treinamento, sugestões de melhorias.
A aplicação do questionário foi realizada de forma individual, presencial e/ou digital, com o apoio de lideranças comunitárias, agentes de campo e equipes técnicas do projeto. A amostragem adotada foi não probabilística por conveniência, o que limita a generalização dos resultados, mas permite uma leitura aprofundada do universo específico dos catadores acompanhados pela iniciativa.
Os dados foram sistematizados em planilhas eletrônicas e analisados com uso de estatística descritiva (frequência simples e relativa) e cruzamentos de variáveis para identificar relações entre perfil sociodemográfico, condições de trabalho e indicadores de saúde. A categorização das respostas abertas foi feita com base em análise de conteúdo (Bardin, 2016), agrupando demandas e sugestões recorrentes em eixos temáticos.
A análise dos dados buscou manter o rigor ético, com anonimização dos participantes e autorização coletiva para uso das informações, conforme os princípios da pesquisa ética com populações em situação de vulnerabilidade (Minayo, 2022). Além disso, os resultados foram socializados previamente com representantes dos catadores, respeitando o princípio da devolutiva social dos dados.
- RESULTADOS E DISCUSSÃO
- Perfil Sociodemográfico: quem são os catadores e catadoras?
A amostra composta por 137 catadores e catadoras revela um recorte marcadamente interseccional das desigualdades sociais no Brasil. Do total de respondentes:
- 56% são mulheres, o que confirma a feminização da pobreza em segmentos historicamente marginalizados (IPEA, 2020);
- 68% se autodeclaram pretos ou pardos, evidenciando o componente racial da exclusão socioeconômica no setor da reciclagem;
- A maioria tem entre 35 e 54 anos, faixa etária que corresponde ao auge da vida produtiva, mas que enfrenta barreiras estruturais ao acesso ao trabalho formal.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua, IBGE, 2023) mostram que a informalidade atinge mais de 47% da população negra no mercado de trabalho, sendo ainda mais elevada entre mulheres negras. Esses dados corroboram a realidade observada na pesquisa, na qual a maioria das mulheres negras catadoras encontra-se em situação de sub-remuneração e com acesso precário a direitos básicos.
Além disso, 72% dos entrevistados têm filhos, o que aumenta a sobrecarga, especialmente entre mulheres chefes de família. A escolaridade predominante é o ensino fundamental incompleto (cerca de 60%), o que contribui para a baixa inserção em ocupações formais e limita o acesso a políticas públicas com exigência de escolarização mínima.
- Condições de Trabalho: informalidade, precarização e ausência de direitos O estudo revela que 42% dos catadores atuam de forma autônoma nas ruas, enquanto os demais estão vinculados a cooperativas, associações ou áreas de coleta organizadas. A informalidade permanece como padrão predominante, especialmente entre os homens e os mais jovens, com início da atividade ainda na adolescência em alguns casos.
A jornada diária de trabalho varia amplamente:
- 27% trabalham mais de 9 horas por dia,
- 41% entre 7 a 9 horas, sem qualquer tipo de vínculo formal, descanso remunerado ou benefícios trabalhistas.
A renda mensal da maioria varia entre R$ 500,00 e R$ 1.500,00, estando abaixo do valor do salário mínimo vigente (R$ 1.412,00 em 2025). Quando indagados sobre a percepção da remuneração:
- 78% classificaram como regular, ruim ou péssima,
- Apenas 6% consideram sua remuneração boa ou ótima.
Este cenário reforça a precarização extrema que afeta a categoria, e também a ausência de políticas redistributivas que reconheçam o valor ambiental e econômico do serviço prestado pelos catadores à sociedade.
- Gênero, Raça e Vulnerabilidades
A análise interseccional dos dados demonstra que mulheres negras constituem o grupo mais vulnerável entre os entrevistados. Estas acumulam:
- Menor renda média mensal;
- Maior responsabilidade com filhos;
- Maior incidência de queixas relacionadas à saúde mental, como insônia e ansiedade;
- Maior presença em atividades de triagem e coleta manual pesada, sem maquinário.
Esse padrão repete o que estudos como o de Batista & Ferreira (2020) e o Dossiê Catadoras (MNCR, 2022) já identificaram: a atuação das mulheres negras na catação é marcada por invisibilização institucional, baixa autonomia econômica e ausência de suporte social. Por outro lado, muitas delas atuam como lideranças comunitárias ou em cargos de gestão nas cooperativas, o que indica sua potência organizativa.
- Saúde e Segurança no Trabalho
A pesquisa revelou um quadro preocupante no que diz respeito à saúde e segurança no trabalho:
- 59% relataram não utilizar EPIs regularmente;
- Os equipamentos mais citados foram luvas (37%), botas (28%) e máscaras (12%);
- 63% nunca receberam nenhum tipo de capacitação sobre saúde do trabalhador;
- 52% apresentam dores musculares ou problemas osteoarticulares, principalmente na coluna e nas pernas;
- 28% relataram sintomas frequentes de ansiedade, estresse ou tristeza profunda.
Adicionalmente, 43% afirmaram ter dificuldade para dormir com frequência devido às preocupações com o trabalho e a renda, o que compromete a saúde mental e a produtividade. O acesso à rede pública de saúde é relatado por 61% dos participantes, mas de forma precária: há queixas sobre falta de exames, demora nos atendimentos e ausência de acompanhamento continuado.
Esses achados se alinham às evidências do Ministério da Saúde (2022), que indicam que trabalhadores informais estão mais expostos a riscos físicos, químicos e psicossociais, com menor acesso a programas de saúde preventiva.
- Demandas e Percepções: o que dizem os catadores?
Dos 117 respondentes que descreveram sugestões para melhoria da atividade, as demandas mais citadas foram:
| CATEGORIA | FREQUÊNCIA | % |
| REMUNERAÇÃO E PAGAMENTO | 59 | 50,4% |
| RECONHECIMENTO INSTITUCIONAL | 48 | 41,0% |
| ESTRUTURA E EQUIPAMENTOS | 46 | 39,3% |
| CONTRATAÇÃO FORMAL | 37 | 31,6% |
| SAÚDE E ATENDIMENTO MÉDICO | 31 | 26,5% |
| SEGURANÇA ALIMENTAR | 23 | 19,7% |
| EDUCAÇÃO AMBIENTAL E FORMAÇÃO | 21 | 17,9% |
A alta frequência de pedidos por remuneração justa, estrutura adequada e reconhecimento social demonstra que a maioria dos catadores deseja mais do que assistência pontual: eles demandam integração plena às políticas públicas, valorização do seu trabalho e inserção produtiva com dignidade.
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
O levantamento realizado com 137 catadores e catadoras no âmbito do Projeto Ecorecicla+ confirma um cenário de profunda vulnerabilidade social, laboral e sanitária, que atinge principalmente mulheres negras, com baixa escolaridade e renda inferior ao mínimo necessário para a subsistência. A informalidade, a falta de reconhecimento institucional e a precariedade nas condições de trabalho e saúde compõem um ciclo de exclusão que limita o acesso a direitos e perpetua desigualdades históricas.
Contudo, os dados também apontam caminhos promissores. Catadores vinculados a cooperativas ou associações demonstraram indicadores ligeiramente mais positivos em termos de renda, uso de EPIs e acesso a programas sociais. Isso evidencia o papel estratégico das organizações da economia solidária como instrumentos de inclusão produtiva, fortalecimento da cidadania e construção coletiva de alternativas ao modelo excludente da informalidade urbana.
A análise interseccional das desigualdades – especialmente a partir de gênero e raça
– mostra-se indispensável para o desenho de políticas públicas eficazes. A sobrecarga enfrentada por mulheres negras catadoras não é apenas um indicador de pobreza, mas uma expressão da reprodução de estruturas de opressão que demandam enfrentamento sistêmico. A promoção da saúde, da segurança no trabalho e da justiça econômica exige, portanto, medidas integradas que articulem diversas políticas setoriais (assistência, saúde, meio ambiente, trabalho, habitação).
Assim, os resultados do presente estudo não devem ser vistos apenas como diagnóstico, mas como ferramenta de incidência política e planejamento estratégico
para o poder público, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e cooperativas de catadores.
- RECOMENDAÇÕES
Com base nos dados analisados e nas demandas expressas pelos catadores e catadoras, indicam-se as seguintes linhas de ação e desdobramentos estratégicos:
- Políticas públicas e institucionalização
- Criação de programas municipais de coleta seletiva com inclusão social, com contratos formais para cooperativas, remuneração por tonelada coletada e metas de valorização do trabalho.
- Reconhecimento jurídico dos catadores como agentes ambientais, com registro e emissão de carteiras funcionais, acesso à previdência social e apoio técnico contínuo.
- Integração dos catadores aos sistemas de logística reversa previstos na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), garantindo repasses financeiros e infraestrutura.
- Promoção da saúde e segurança no trabalho
- Implantação de programas de saúde do trabalhador informal, com acompanhamento clínico, vacinação, apoio psicológico e campanhas de prevenção.
- Distribuição contínua e gratuita de EPIs adequados às atividades da catação, com capacitações periódicas sobre seu uso e ergonomia.
- Incentivo à construção de espaços adequados de triagem e armazenamento, com ventilação, sanitários, áreas de descanso e segurança.
- Formação, reconhecimento e valorização
- Campanhas públicas de valorização social dos catadores, enfatizando seu papel ambiental e contribuindo para reduzir o estigma social.
- Ampliação de oficinas de formação em gestão, educação ambiental e autogestão, fortalecendo o protagonismo das cooperativas.
- Adoção de recortes interseccionais nas políticas públicas, garantindo ações específicas para mulheres, pessoas negras, com deficiência e outros grupos vulnerabilizados dentro do universo da catação.
- Fortalecimento da economia solidária e das redes de apoio
- Apoio a redes territoriais de intercooperação, que integrem cooperativas, associações, instituições de ensino e movimentos sociais.
- Financiamento de empreendimentos solidários ligados à reciclagem, reuso e logística ambiental, com acesso a crédito subsidiado, assessoria técnica e incubadoras.
Este artigo pretende ser não apenas um retrato estatístico da realidade dos catadores, mas um instrumento de mobilização e transformação. Que as vozes e demandas aqui sistematizadas possam ecoar em políticas públicas mais justas, em práticas institucionais mais humanas e em uma sociedade que reconheça o valor de quem cuida daquilo que todos descartam.
- REFERÊNCIAS
Thiollent, M. (2011). Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez.
Minayo, M. C. de S. (2022). Ética na pesquisa social: fundamentos e práticas. Fiocruz. IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “A coleta seletiva de resíduos sólidos urbanos: diagnóstico dos catadores de materiais recicláveis.” Brasília, 2012. Gohn, M. da G. (2014). “Educação popular, movimentos sociais e educação cidadã.” Cortez.
Dias, S. M. (2011). “Reciclagem solidária e inclusão social: o caso dos catadores de materiais recicláveis.” Revista Ciência & Saúde Coletiva, 16(12), 3453-3462.
Brasil. Ministério da Saúde. (2018). “Saúde do trabalhador e da trabalhadora: linhas de cuidado.” Brasília: MS.
Batista, E. A., & Ferreira, D. C. (2020). “Vulnerabilidades sociais e políticas públicas para catadores de materiais recicláveis.” Revista de Políticas Públicas, 24(1), 115- 132. Bardin, L. (2016). Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70.



