

Resumo
Diante das crises estruturais do capitalismo — que acentuam desigualdades, precarizam o trabalho e agravam os conflitos ambientais e sociais — o socialismo democrático emerge como uma alternativa viável e necessária. Inspirado no pensamento de Paul Singer, este artigo apresenta a Economia Solidária como prática concreta de construção de um projeto socialista democrático, centrado na autogestão, na territorialidade e na participação popular. Argumenta-se que a transformação social não ocorrerá por ruptura, mas por processos enraizados nos territórios e protagonizados por trabalhadores organizados coletivamente. O Programa Paul Singer – Agentes de Economia Popular e Solidária é analisado como política estruturante para essa construção.
Palavras-chave: Socialismo Democrático; Economia Solidária; Paul Singer; Autogestão; Territorialidade; Políticas Públicas.
- Introdução
Vivemos em uma sociedade marcada por profundas contradições: a concentração de riqueza convive com a miséria extrema; o avanço tecnológico coexiste com o desemprego estrutural; a lógica de mercado molda todas as esferas da vida. Em resposta a essa realidade, cresce em diversas partes do mundo a busca por alternativas ao modelo capitalista, e uma das mais promissoras é o *socialismo democrático, compreendido aqui como um projeto de transformação social ancorado na *democracia real, na justiça social e na participação popular.
No Brasil, esse caminho vem sendo trilhado, silenciosa mas firmemente, por meio das experiências da *Economia Solidária, que reúnem milhares de trabalhadores e trabalhadoras em empreendimentos autogestionários. Esse movimento ganha corpo com o pensamento de *Paul Singer, intelectual e militante que defendeu a construção de um socialismo democrático a partir das práticas concretas da classe trabalhadora nos territórios.
- Socialismo Democrático: conceito e horizonte
O socialismo democrático propõe uma mudança estrutural no modo de organização da economia e da sociedade, mas sem abrir mão das liberdades civis, da pluralidade política e da democracia como valor central.
Diferentemente das experiências autoritárias do século XX, que concentraram poder no Estado e negaram a autodeterminação popular, o socialismo democrático aposta na ampliação da democracia para o campo econômico. Ele defende que *os meios de produção sejam controlados por quem trabalha, que **as decisões sejam tomadas coletivamente, e que a *riqueza socialmente gerada seja distribuída de maneira justa.
É, portanto, um projeto que se opõe tanto à exploração capitalista quanto ao autoritarismo estatal. Ele busca, como resume Singer (2002), “uma forma de organizar a sociedade baseada na liberdade, na igualdade e na solidariedade, sem que uma seja sacrificada em nome das outras”.
- A Economia Solidária como prática socialista democrática
A Economia Solidária expressa, na prática, os princípios do socialismo democrático. Ela organiza a produção, o consumo, a comercialização e as finanças a partir de relações de cooperação e autogestão, em contraposição à lógica do lucro e da competição.
Nos empreendimentos solidários — sejam cooperativas, associações, grupos informais ou redes territoriais — os trabalhadores são *sujeitos coletivos, não apenas da produção, mas também da gestão e da partilha dos resultados. Essa forma de organização inaugura uma nova lógica econômica, onde o que importa não é o acúmulo, mas a *reprodução digna da vida.
Singer (2008) compreende a Economia Solidária como um “movimento social e econômico” que, apesar de ainda marginal na economia brasileira, tem potencial para se tornar a base de um novo sistema, mais justo, democrático e sustentável.
- Autogestão e Territorialidade: fundamentos dessa construção
4.1 Autogestão: democracia econômica em ação
A autogestão é a prática da democracia direta no mundo do trabalho. É quando as decisões sobre o que, como e para quem produzir são tomadas pelos próprios trabalhadores, em assembleias, conselhos ou outras formas participativas.
Para Paul Singer, a autogestão é mais do que um modelo de gestão: é uma pedagogia da cidadania econômica. É por meio dela que os trabalhadores exercem o poder sobre a produção, rompendo com séculos de dominação do capital sobre o trabalho.
“A autogestão emancipa o trabalhador porque lhe dá o poder de decidir sobre o seu trabalho e o destino do produto do seu esforço.”
(Singer, 1998)
4.2 Territorialidade: o chão da transformação
A territorialidade, por sua vez, é a dimensão socioespacial da Economia Solidária. O território é onde os sujeitos vivem, resistem, produzem e se organizam. É nele que se materializam as práticas de solidariedade, os vínculos comunitários e os saberes populares.
O socialismo democrático, como projeto de transformação, não se constrói em abstrações ideológicas, mas nos territórios vivos, enraizado nas demandas e potencialidades locais. O fortalecimento das redes produtivas territoriais, das políticas públicas locais e da articulação entre sujeitos diversos é, portanto, condição para a consolidação de um novo modelo de desenvolvimento.
- O Programa Paul Singer: política pública para a autogestão territorializada
Lançado em 2024 pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o Programa Paul Singer – Agentes de Economia Popular e Solidária é uma iniciativa estratégica para a construção da Política Nacional de Economia Solidária. Seu desenho combina formação política, apoio institucional e articulação territorial por meio da atuação de agentes populares nos territórios.
Esse programa reconhece que a Economia Solidária só se fortalece quando há sujeitos organizados em seus territórios, com formação crítica e instrumentos de ação coletiva. Por isso, propõe:
- A formação de agentes territoriais com base na Educação Popular;
- A atuação direta nos territórios para mobilização de empreendimentos e redes solidárias;
- O estímulo à autogestão como princípio organizativo e pedagógico;
- O reconhecimento dos territórios como espaços de construção de políticas públicas solidárias.
Mais do que uma política de capacitação, o Programa Paul Singer é um *instrumento de transformação territorial. Ele busca consolidar a *autogestão como prática cotidiana nos empreendimentos e a territorialidade como método político de desenvolvimento.
Nas palavras do próprio documento de referência do programa:
“A autogestão e a territorialidade são os referenciais estruturantes da ação pedagógica nos processos educativos de Economia Popular e Solidária.”
Assim, o programa não apenas amplia a capilaridade da Economia Solidária, como também a qualifica politicamente, aproximando-a da utopia concreta do socialismo democrático preconizado por Paul Singer.
- Considerações Finais
O socialismo democrático não é um sonho distante. Ele já começou — nas associações de mulheres, nas cooperativas de reciclagem, nas cozinhas solidárias, nos conselhos populares. Ele vive nas práticas da Economia Solidária e nos territórios onde a luta coletiva floresce.
Retomar o legado de Paul Singer é reconhecer que a emancipação da classe trabalhadora será obra dela mesma — por meios pacíficos, democráticos e solidários. E que, para isso, é preciso investir em formação, organização, políticas públicas e redes de cooperação que fortaleçam as experiências autogestionárias e territoriais.
Programas como o Paul Singer – Agentes de Economia Solidária representam um passo decisivo nessa caminhada: ao mesmo tempo em que criam sujeitos políticos nos territórios, estruturam as bases de uma nova economia — solidária, democrática e popular.
Referências
- SENAES/MTE. Documento de Referência do Programa Paul Singer – Agentes de Economia Popular e Solidária. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego, 2025.
- SINGER, Paul. Autogestão: uma Ideologia para o Socialismo. São Paulo: Contexto, 1998.
- SINGER, Paul. Economia Solidária – Utopia Possível. São Paulo: Contexto, 2002.
- SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2008.
- SINGER, Paul. O que é Economia Solidária. São Paulo: Brasiliense, 2004.



