


Apesar das oscilações entre entrar e sair do Mapa da Fome, a agricultura familiar e a economia solidária atuam como sistema linfático nacional — invisíveis, essenciais e capazes de curar ou condenar o corpo social brasileiro.
Ela é invisível aos olhos do grande capital, silenciosa nas manchetes dos jornais, discreta nas gôndolas dos supermercados. Mas está lá, circulando por todo o território nacional, combatendo as toxinas sociais e alimentares, prevenindo colapsos, promovendo saúde territorial. A agricultura familiar é o sistema linfático do Brasil. Sem ela, o país incha de desigualdade, infecciona de fome e definha em sua própria negligência.
Como o sistema linfático do corpo humano, que atua nos bastidores da imunidade, drenando excessos, removendo impurezas e ativando defesas, a agricultura familiar age nos interstícios da sociedade, sustentando o que o agronegócio jamais poderá: a soberania alimentar, o tecido social das comunidades, a resiliência produtiva em tempos de crise.
Foi assim durante a pandemia de Covid-19. Enquanto as cadeias globais de abastecimento colapsavam, o agronegócio buscava dólar e lucro nas exportações, e os governos hesitavam em responder à emergência, foram os pequenos agricultores, assentados, quilombolas, povos indígenas e camponeses que garantiram o alimento fresco e saudável nas periferias, nas feiras livres e nas doações comunitárias. Eles não pararam. Não podiam parar. Porque sabiam que o povo com fome não espera.
Mas essa não foi a única vez em que a agricultura familiar salvou o Brasil de si mesmo.
Vamos recuar no tempo.
Em 2003, o Brasil contabilizava cerca de 44 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave ou moderada. Naquele mesmo ano, o então presidente Lula lança o Fome Zero, articulando o maior programa de combate à fome da história brasileira. O foco? Agricultura familiar, compras públicas, distribuição de renda e fortalecimento da economia popular. Os efeitos foram imediatos: em 2014, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) retira o Brasil do Mapa da Fome, reconhecendo que menos de 5% da população estava em insegurança alimentar grave.
O motor dessa virada foi a agricultura familiar. Com políticas públicas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), milhões de famílias agricultoras passaram a vender diretamente para o Estado, ao mesmo tempo em que escolas, creches e hospitais recebiam comida saudável, local e variada.
Mas, como num corpo adoecido por más decisões, o sistema linfático foi sendo atacado.
A partir de 2016, com o desmonte de políticas públicas e o congelamento dos gastos sociais, o Brasil voltou a caminhar para a insegurança alimentar. Em 2022, sob o governo Bolsonaro, mais de 33 milhões de brasileiros voltaram a passar fome, segundo a Rede Penssan. Isso mesmo: voltamos ao Mapa da Fome.
A agricultura familiar foi empurrada novamente para a marginalidade. Cortes de orçamento, desestruturação da CONAB, desarticulação do CONSEA, abandono dos programas de compras públicas. O corpo social voltou a adoecer.
Mas, mais uma vez, o sistema linfático resistiu. Mesmo sem apoio, os agricultores familiares seguiram cultivando, transformando, trocando e alimentando. Hoje, eles representam 77% dos estabelecimentos rurais do país e produzem cerca de 70% dos alimentos que vão à mesa dos brasileiros, segundo o Censo Agropecuário do IBGE.
Foi esse sistema que, mesmo ferido, sustentou a esperança até que a política voltasse a pulsar a favor da vida.
Em 2023, com o retorno do governo Lula, políticas públicas voltaram a ser reconstruídas. O Consea foi reativado, o Plano Safra da Agricultura Familiar foi relançado com recorde de recursos (R$ 77,7 bilhões em 2024), e programas como o PAA foram revitalizados. Em julho de 2024, o Brasil é novamente retirado do Mapa da Fome. Um feito histórico, fruto da combinação entre Estado presente e povo organizado.
Mas ainda é pouco.
A agricultura familiar e a economia solidária seguem sendo tratadas como política de compensação, quando deveriam ser eixo estruturante de desenvolvimento. Afinal, o futuro sustentável do Brasil não virá da monocultura nem da financeirização da terra, mas da diversificação produtiva, da agroecologia, da soberania alimentar e da gestão coletiva dos recursos — princípios que nascem nas práticas da agricultura familiar e da economia solidária.
Na Bahia, a Unisol tem testemunhado e fortalecido esse corpo resiliente. Mulheres quebradeiras de licuri, cooperativas de catadores, associações de agroecologistas, pescadores artesanais e comunidades tradicionais têm resistido com dignidade, oferecendo ao Brasil um projeto de país que nutre e regenera.
Mas o alerta precisa ser feito.
No corpo humano, quando o sistema linfático para de funcionar, o organismo entra em colapso. Edemas, infecções crônicas, falência múltipla dos órgãos. No Brasil, se a agricultura familiar for negligenciada, o cenário será igualmente distópico: um país cada vez mais envenenado, dependente de importações, desigual, faminto e insustentável.
Não é apenas uma metáfora. É uma escolha política.
Ou fortalecemos o sistema que nos mantém vivos — ou sucumbimos à lógica que nos adoece.



