Mulheres na política: quando a democracia ainda não representa a maioria

Por que o Brasil ainda está tão distante da paridade de gênero nos espaços de poder

O Brasil é um país em que as mulheres são maioria da população e do eleitorado, mas continuam sendo minoria nos espaços onde as decisões políticas são tomadas. O dado mais recente divulgado pelo Instituto Esfera e repercutido pela Revista Fórum nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, recoloca uma questão que a democracia brasileira ainda não conseguiu resolver: quem participa da política brasileira e quem, de fato, tem condições de exercer o poder? Segundo o estudo citado pela Revista Fórum, o Brasil aparece na 134ª posição entre 183 países em um ranking de representação feminina na política, sendo apontado como o país latino-americano com pior desempenho. A pesquisa utilizou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Senado e do Observatório Nacional da Mulher na Política.

O número chama atenção, mas precisa ser lido com cuidado. O ranking mensal da União Interparlamentar (IPU), por exemplo, apresenta o Brasil na 138ª posição em maio de 2026, com mulheres ocupando 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados. Isso demonstra que diferentes levantamentos, realizados em datas e com metodologias distintas, podem produzir posições diferentes. O ponto comum entre eles, entretanto, permanece: a representação feminina brasileira está muito abaixo daquilo que seria esperado em uma democracia que pretende representar sua população.

Mais candidatas não significa mais mulheres no poder

Talvez uma das informações mais importantes do estudo seja a distância entre candidatura e eleição. Entre 1998 e 2022, o número de mulheres candidatas à Câmara dos Deputados passou de 358 para 3.668, um crescimento superior a 900%. Entretanto, o número de mulheres efetivamente eleitas passou de apenas 29 para 91.Ou seja: o Brasil conseguiu aumentar significativamente a presença feminina nas disputas eleitorais, mas ainda não conseguiu transformar esse crescimento em ocupação proporcional dos espaços de poder.

Em 2022, as mulheres conquistaram aproximadamente 17,7% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. O resultado está muito distante da participação das mulheres na sociedade brasileira e também da própria composição do eleitorado. Esse descompasso revela que o problema não está simplesmente na ausência de mulheres interessadas em participar da política. Ele está também nas condições concretas de acesso, financiamento, estrutura partidária, exposição pública, redes de apoio e capacidade de transformar uma candidatura em mandato.

O município revela a dimensão cotidiana da desigualdade

As eleições municipais de 2024 ajudam a compreender a dimensão territorial do problema. Foram eleitas 10.649 vereadoras, correspondendo a aproximadamente 18,2% das cadeiras. Em comparação com 2020, quando foram eleitas 9.371 vereadoras, houve crescimento, mas ainda insuficiente para alterar estruturalmente o cenário. Também foram eleitas 722 prefeitas, cerca de 13% do total, contra 656 em 2020. Esses números precisam ser observados para além das estatísticas nacionais. A baixa presença de mulheres nas câmaras municipais significa que milhares de municípios continuam tomando decisões sobre orçamento público, saúde, educação, assistência social, desenvolvimento econômico, agricultura, meio ambiente e políticas para as mulheres sem uma representação feminina proporcional à sociedade. A própria Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) destacou, após as eleições de 2024, que a participação das mulheres na política brasileira permanece baixa e apontou a resistência das estruturas partidárias como um dos obstáculos à ampliação dessa presença, especialmente para mulheres negras.

A cota é necessária — mas não é suficiente

O Brasil possui uma política de cotas de gênero nas candidaturas proporcionais. A Lei nº 9.504/1997 estabelece que os partidos devem preencher o mínimo de 30% e o máximo de 70% das candidaturas para cada gênero. Essa legislação foi resultado de uma construção histórica. Em 1995, a legislação eleitoral estabeleceu uma primeira ação afirmativa para ampliar a participação das mulheres nas eleições municipais. Em 1997, a política foi ampliada para as eleições proporcionais estaduais e federais, com o percentual mínimo chegando a 30%. Em 2009, a legislação passou a determinar que os partidos efetivamente preenchessem os percentuais, e não apenas reservassem vagas. A existência da cota, portanto, representa uma conquista importante. Entretanto, os dados demonstram que 30% de candidaturas não significam 30% de mulheres eleitas.

Por isso, o debate atual precisa avançar da pergunta “quantas mulheres foram inscritas?” para questões mais profundas: Quanto dinheiro chegou efetivamente às candidaturas femininas? Quanto tempo de propaganda receberam? Quantas tiveram estrutura partidária para fazer campanha? Quantas foram colocadas em condições reais de competitividade? Quantas mulheres negras, indígenas, quilombolas, periféricas, trabalhadoras e oriundas dos movimentos sociais conseguem chegar aos espaços de decisão? O próprio TSE reconhece a necessidade de combater fraudes à cota de gênero. Entre os elementos que podem caracterizar candidaturas fictícias estão votação zerada ou inexpressiva, ausência de movimentação financeira relevante e inexistência de atos efetivos de campanha. A desigualdade aumenta quando gênero e raça se cruzam

Falar em mulheres na política sem falar em raça também é insuficiente.

As barreiras enfrentadas pelas mulheres brasileiras não são iguais. Mulheres negras e indígenas encontram obstáculos adicionais relacionados ao racismo estrutural, às desigualdades econômicas e à violência política. Levantamentos sobre as eleições municipais de 2024 mostram, por exemplo, que mulheres negras e indígenas estiveram presentes entre as candidaturas, mas enfrentaram forte desigualdade no acesso aos recursos e às condições de disputa. Uma publicação sobre mulheres e poder aponta que, entre as 158 mil candidatas nas eleições municipais de 2024, 81 mil se autodeclararam negras e 961 indígenas, ao mesmo tempo em que registra forte concentração dos recursos públicos eleitorais entre candidaturas brancas. A questão, portanto, não é apenas mulher ou homem. É necessário perguntar quais mulheres conseguem chegar ao poder. Uma democracia verdadeiramente representativa precisa incorporar a diversidade existente na própria sociedade.

O contraste latino-americano

A situação brasileira fica ainda mais evidente quando observamos outros países da América Latina. O estudo divulgado pelo Instituto Esfera e repercutido pela Revista Fórum destaca a situação de países como Cuba e México, que apresentam níveis de representação feminina muito superiores aos brasileiros. O México é particularmente importante nessa comparação porque adotou mecanismos de paridade política e, em 2024, elegeu Claudia Sheinbaum como sua primeira presidenta. O caso mexicano demonstra que a ampliação da presença feminina não acontece simplesmente porque as mulheres passaram a participar mais das eleições. Ela depende de instituições, regras eleitorais, financiamento, organização política e mecanismos que transformem a participação em poder efetivo. A OEA também identificou, após as eleições brasileiras de 2024, a ausência de iniciativas legislativas suficientes para avançar em direção à paridade de gênero e registrou que candidatas e especialistas entrevistadas apontaram resistência das estruturas partidárias à ampliação dos espaços destinados às mulheres.

A democracia precisa sair da lógica da presença e chegar à lógica do poder

Durante muito tempo, o debate sobre mulheres na política esteve concentrado na necessidade de aumentar o número de candidatas. Esse passo continua sendo necessário, mas já não é suficiente. O desafio contemporâneo é garantir condições reais de disputa e permanência. Isso envolve financiamento público efetivo, fiscalização, formação política, combate à violência política de gênero, proteção às candidatas, democratização dos partidos e mecanismos que assegurem que as mulheres não sejam apenas utilizadas para cumprir uma exigência legal. A própria legislação eleitoral já estabelece regras relacionadas à distribuição dos recursos públicos e à propaganda eleitoral. O TSE também possui jurisprudência consolidada sobre a necessidade de fiscalização das cotas e das fraudes. Mas a mudança precisa ser também cultural e política. Mulheres precisam ter acesso às estruturas de decisão antes, durante e depois das eleições.

A política também se constrói nos territórios

Existe ainda uma dimensão que frequentemente fica invisível nas estatísticas eleitorais: a política construída fora dos parlamentos. Mulheres organizadas em associações, cooperativas, sindicatos, movimentos sociais, organizações comunitárias, redes de economia solidária, coletivos culturais e iniciativas de desenvolvimento territorial já exercem funções políticas fundamentais. Elas organizam comunidades, geram trabalho e renda, cuidam de territórios, preservam conhecimentos, produzem alimentos, enfrentam a fome, constroem redes de solidariedade e reivindicam políticas públicas. Essa atuação demonstra que participação política não começa necessariamente nas urnas. Muitas vezes, começa na comunidade. Começa quando uma mulher participa de uma associação, assume a coordenação de uma cooperativa, organiza uma feira, disputa o orçamento público, participa de um conselho, constrói uma rede de produção ou reivindica uma política para seu território. É nesse sentido que fortalecer a autonomia econômica e organizativa das mulheres também é uma estratégia de democratização do poder.

Da participação à paridade

Os números de 2026 não deveriam ser utilizados apenas para lamentar a posição brasileira nos rankings internacionais. Eles precisam servir como ponto de partida para uma agenda política.

Uma agenda que envolva:

  • fortalecimento da fiscalização das cotas de gênero;
  • garantia efetiva dos recursos destinados às candidaturas femininas;
  • combate às candidaturas fictícias;
  • enfrentamento da violência política de gênero e raça;
  • formação e educação política para mulheres;
  • fortalecimento das mulheres nos partidos e organizações sociais;
  • ampliação da participação de mulheres negras, indígenas, quilombolas, jovens e trabalhadoras;
  • mecanismos de democratização interna das estruturas partidárias;
  • discussão sobre modelos eleitorais que favoreçam maior representação;
  • políticas de autonomia econômica para mulheres;
  • estímulo à participação feminina nos conselhos, conferências e espaços de controle social.

Em agosto de 2026, movimentos sociais também lançaram uma iniciativa para recolher assinaturas em apoio a um projeto de iniciativa popular que propõe reservar 50% das cadeiras dos legislativos para mulheres, metade delas destinada a mulheres negras. A iniciativa nasce justamente da percepção de que a atual cota de candidaturas não tem produzido representação proporcional nos mandatos. O debate está, portanto, avançando: não basta garantir o direito de disputar; é preciso discutir as condições para vencer e exercer o poder. Uma democracia que ainda precisa aprender a dividir o poder. A baixa representação feminina não é apenas um problema das mulheres. É um problema da democracia brasileira. Quando mais da metade da população está sub-representada nos espaços de decisão, a democracia perde capacidade de expressar a diversidade da sociedade. O desafio não é colocar mulheres na política como uma concessão. É reconhecer que sem mulheres nos espaços de poder, a democracia permanece incompleta. A pergunta que os dados de 2026 colocam ao Brasil é simples, mas profunda: Se as mulheres são maioria na sociedade, por que continuam sendo minoria onde as decisões são tomadas? Responder a essa pergunta exige mais do que campanhas eleitorais. Exige transformar estruturas. E talvez esse seja o ponto central: não precisamos apenas de mais mulheres candidatas. Precisamos de mais mulheres com condições reais de disputar, vencer, governar, legislar, decidir e transformar. A democracia brasileira não estará plenamente representada enquanto a maioria da população continuar sendo minoria nos lugares onde o futuro do país é decidido.

Referências e fontes

Revista Fórum. A pior posição da América Latina: Brasil fica em 134º lugar em ranking global de mulheres na política. Publicado em 13 de agosto de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Lei das Eleições – Lei nº 9.504/1997, especialmente o art. 10, §3º, sobre os percentuais de candidaturas por gênero.

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