

Por Anne Sena
Introdução
Nas últimas décadas, o debate sobre desenvolvimento econômico tem sido marcado por uma aparente contradição. Ao mesmo tempo em que o mundo registra avanços tecnológicos sem precedentes, observa-se o aprofundamento das desigualdades sociais, da concentração da riqueza, da precarização do trabalho e da degradação ambiental. O crescimento econômico, isoladamente, mostrou-se incapaz de produzir desenvolvimento humano e territorial.
Essa constatação levou autores como Amartya Sen (1999) a afirmar que o desenvolvimento deve ser compreendido como expansão das liberdades substantivas das pessoas. Da mesma forma, Celso Furtado (1974) advertia que crescimento econômico não significa desenvolvimento quando não altera estruturalmente as condições de vida da população nem reduz as desigualdades.
No Brasil, esse desafio assume contornos ainda mais complexos diante da enorme diversidade territorial. Milhares de comunidades rurais, quilombolas, assentamentos, grupos de mulheres, cooperativas de catadores e empreendimentos da agricultura familiar permanecem inseridos em economias periféricas, frequentemente invisibilizadas pelas políticas tradicionais de desenvolvimento.
É nesse contexto que a Economia Popular e Solidária emerge não apenas como política social, mas como uma estratégia econômica capaz de reorganizar os processos produtivos a partir da cooperação, da democracia econômica e da valorização dos territórios.
Economia Solidária como estratégia de desenvolvimento
A Economia Solidária foi concebida por Paul Singer (2002) como uma forma de organização da produção baseada na autogestão, na cooperação e na propriedade coletiva dos meios de produção. Entretanto, sua importância extrapola a dimensão organizativa.
Autores como José Luis Coraggio (2011) defendem que a Economia Popular constitui um sistema econômico próprio, capaz de produzir riqueza, fortalecer mercados locais e ampliar capacidades produtivas sem reproduzir as desigualdades inerentes ao capitalismo concentrador.
Na perspectiva de Karl Polanyi (1944), trata-se da reimersão da economia na sociedade, restabelecendo relações econômicas subordinadas às necessidades humanas e não exclusivamente à lógica do lucro.
Sob essa perspectiva, o desenvolvimento deixa de ser compreendido como mera acumulação de capital para tornar-se um processo de fortalecimento das capacidades coletivas dos territórios.
Tecnologias sociais como infraestrutura do desenvolvimento
Se a Economia Solidária representa um paradigma econômico alternativo, as tecnologias sociais constituem sua infraestrutura institucional.
Segundo a Fundação Banco do Brasil, tecnologias sociais são metodologias reaplicáveis desenvolvidas em interação com a comunidade e apropriadas por ela, capazes de gerar transformação social.
Essa definição aproxima-se das contribuições de Boaventura de Sousa Santos (2006), ao defender uma ecologia de saberes que reconheça o conhecimento produzido pelas próprias comunidades como fundamento para a inovação social.
No Projeto Territórios em Ação, essa concepção materializa-se em um conjunto articulado de instrumentos metodológicos que ultrapassam a assistência técnica convencional.
Entre eles destacam-se: Marco Zero Territorial; Diagnóstico Participativo; Planos Comunitários de Desenvolvimento; Metodologia de Maturidade dos Empreendimentos (Semear, Germinar, Florescer, Fertilizar e Colher); Estudos de Viabilidade Econômica; Fundos Rotativos Solidários; Redes Socioprodutivas Territoriais; Incubação Territorial. Esses instrumentos transformam conhecimento em capacidade institucional e fortalecem a autonomia das organizações comunitárias.
O Territórios em Ação como evidência empírica
Ao acompanhar dezenas de empreendimentos em diferentes municípios baianos, o Projeto Territórios em Ação demonstra que o fortalecimento econômico depende menos da transferência pontual de recursos e mais da construção de capacidades locais.
A metodologia aplicada articula formação, assistência técnica, planejamento participativo, fortalecimento institucional e organização das cadeias produtivas.
Agricultura familiar, comunidades tradicionais, artesanato e cooperativas de catadores passam a integrar redes de cooperação capazes de compartilhar conhecimento, acessar mercados institucionais, desenvolver identidade territorial e construir estratégias conjuntas de comercialização.
Mais do que apoiar empreendimentos individuais, o projeto fortalece ecossistemas econômicos territoriais.
Petrobras e o investimento social como política de desenvolvimento
Uma das dimensões mais relevantes dessa experiência é demonstrar como empresas públicas de caráter estratégico podem desempenhar papel decisivo na promoção do desenvolvimento territorial.
Ao apoiar iniciativas como o Projeto Territórios em Ação, a Petrobras amplia o alcance de sua política de responsabilidade socioambiental e passa a atuar como indutora de processos estruturantes de desenvolvimento.
Não se trata apenas de financiamento social.
Trata-se da construção de capacidades produtivas, institucionais e organizativas que permanecem nos territórios mesmo após o encerramento do investimento.
Essa lógica aproxima-se do conceito de valor compartilhado, formulado por Michael Porter e Mark Kramer (2011), segundo o qual investimentos empresariais podem gerar simultaneamente benefícios sociais e fortalecimento dos ambientes econômicos onde as organizações atuam.
No caso da Petrobras, essa estratégia ganha ainda maior relevância diante de seu compromisso histórico com o desenvolvimento nacional e com a transição para modelos econômicos mais sustentáveis e inclusivos.
Ao investir em redes territoriais de Economia Popular e Solidária, a empresa contribui para diversificar economias locais, fortalecer cadeias produtivas, promover inclusão socioprodutiva e ampliar a resiliência dos territórios.
Considerações finais
A experiência do Projeto Territórios em Ação evidencia que a combinação entre tecnologias sociais, Economia Popular e Solidária e investimento social privado de longo prazo constitui uma estratégia consistente de desenvolvimento territorial.
Mais do que financiar projetos, trata-se de fortalecer capacidades coletivas, democratizar oportunidades econômicas e consolidar uma infraestrutura social capaz de produzir desenvolvimento sustentável.
Em um país marcado por profundas desigualdades regionais, experiências dessa natureza demonstram que o futuro do desenvolvimento brasileiro dependerá cada vez mais da articulação entre Estado, empresas públicas, universidades, movimentos sociais e organizações da sociedade civil na construção de territórios economicamente dinâmicos, socialmente justos e ambientalmente sustentáveis.
Referências sugeridas
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. A Gramática do Tempo. Cortez, 2006.
CORAGGIO, José Luis. Economia Social e Solidária. 2011.
DAGNINO, Renato. Tecnologia Social: ferramenta para construir outra sociedade. 2009.
FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. 1974.
POLANYI, Karl. A Grande Transformação. 1944.
PORTER, Michael; KRAMER, Mark. Creating Shared Value. Harvard Business Review, 2011.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. 1999.
SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária. 2002.
Fundação Banco do Brasil. Tecnologia Social: conceito e reaplicação.



