Outubro Rosa e a Economia dos Cuidados: cuidar também é produzir vida

Por Anne Guiomar de Sena Silva — Presidenta da UNISOL Bahia


Outubro Rosa nos convida a falar sobre prevenção, diagnóstico e cuidado com a saúde das mulheres. Mas, para nós que construímos a Economia Solidária, falar de cuidado precisa ir além da saúde individual. Precisamos olhar para uma questão que atravessa a vida cotidiana de milhões de mulheres: quem cuida de quem cuida? Essa pergunta nos leva ao debate sobre a Economia dos Cuidados. Durante muito tempo, o trabalho de cuidar foi tratado como algo natural da vida das mulheres. Cuidar dos filhos, dos idosos, das pessoas doentes, organizar a casa, preparar alimentos, acompanhar familiares, manter vínculos e sustentar emocionalmente as famílias são atividades fundamentais para a sociedade, mas frequentemente permanecem invisíveis, não remuneradas e pouco reconhecidas.
Enquanto isso, muitas dessas mesmas mulheres também trabalham, produzem, empreendem, participam de associações, cooperativas, movimentos sociais e constroem alternativas econômicas em seus territórios. É preciso reconhecer: cuidar é trabalho. Cuidar é produzir vida. Cuidar sustenta a economia. As mulheres não podem continuar cuidando de todos e adiando o próprio cuidado Quando uma mulher dedica seu dia ao trabalho, à família, à comunidade e ao empreendimento solidário, muitas vezes seu próprio cuidado fica para depois. A consulta médica pode esperar. O exame pode esperar. O descanso pode esperar. O sonho pode esperar. E é justamente aí que o Outubro Rosa ganha uma dimensão ainda mais profunda. Falar de prevenção é também falar sobre tempo. Tempo para olhar para si. Tempo para buscar informação. Tempo para acessar um serviço de saúde. Tempo para realizar um exame. Tempo para descansar. Tempo para viver. Por isso, uma sociedade que deseja cuidar das mulheres precisa também redistribuir o trabalho de cuidado. Não podemos continuar responsabilizando individualmente as mulheres por uma tarefa que é social e coletiva.

Economia Solidária também é Economia dos Cuidados
A Economia Solidária nos ensina que a economia não precisa ser construída apenas a partir da competição e da busca pelo lucro. Podemos construir relações econômicas baseadas na cooperação, na solidariedade, na democracia, na valorização do trabalho e na sustentabilidade da vida. É nesse ponto que encontramos uma conexão profunda entre a Economia Solidária e a Economia dos Cuidados. Nos empreendimentos solidários encontramos mulheres que produzem alimentos, cultivam a terra, transformam materiais recicláveis, fazem artesanato, cozinham, cuidam de suas comunidades e criam alternativas para gerar renda e autonomia. São mulheres que não apenas movimentam a economia. Elas movimentam os territórios. Quando fortalecemos essas mulheres, fortalecemos famílias, comunidades e redes locais. Mas precisamos dar um passo além: precisamos construir empreendimentos e políticas que também considerem o direito dessas mulheres ao descanso, à saúde, à proteção social, à formação, à renda digna e ao tempo para si. O cuidado precisa estar no centro das políticas públicas. Discutir Economia dos Cuidados significa também discutir políticas públicas. Creches, escolas em tempo integral, serviços de saúde acessíveis, equipamentos de assistência social, políticas para pessoas idosas e pessoas com deficiência, segurança alimentar, transporte, moradia e geração de trabalho e renda fazem parte de uma mesma agenda. Quando o Estado oferece políticas públicas de cuidado, ele contribui para diminuir a sobrecarga que historicamente recai sobre as mulheres. E quando as organizações sociais, cooperativas e empreendimentos solidários participam dessa construção, ampliamos a capacidade dos territórios de criar respostas coletivas. Por isso, precisamos defender uma economia que coloque a vida no centro das decisões.

Cuidar também é um ato político
Quando uma mulher decide cuidar da própria saúde, ela está dizendo que sua vida importa. Quando uma comunidade cria uma rede para cuidar de suas crianças, seus idosos e suas pessoas vulneráveis, está dizendo que ninguém deve cuidar sozinho. Quando um empreendimento organiza sua produção considerando as necessidades das trabalhadoras, está dizendo que produtividade não pode significar adoecimento. Quando uma política pública reconhece o trabalho de cuidado, está dizendo que aquilo que sustenta a sociedade não pode permanecer invisível. É por isso que o Outubro Rosa pode ser também um momento de reflexão sobre o modelo de sociedade que queremos construir. Não queremos apenas mulheres sobrevivendo à sobrecarga. Queremos mulheres vivendo com dignidade, autonomia, saúde, renda e tempo para si. Nas comunidades, aprendemos que ninguém cuida sozinho A experiência da Economia Solidária nos mostra diariamente que a cooperação transforma. Uma mulher apoia outra. Uma associação fortalece uma trabalhadora. Um grupo compartilha conhecimento. Uma comunidade cria soluções. Uma rede abre caminhos. Essa lógica precisa também estar presente no cuidado. Precisamos construir redes de cuidado, e não apenas transferir para cada mulher a responsabilidade de cuidar de si. O autocuidado é importante, mas não pode ser utilizado para esconder a falta de políticas públicas, a desigualdade na divisão do trabalho doméstico e a sobrecarga feminina.

Cuidar de si é necessário. Cuidar coletivamente é transformador. Outubro Rosa: um convite à mudança
Neste Outubro Rosa, a UNISOL Bahia reafirma seu compromisso com uma Economia Solidária que reconhece as mulheres como protagonistas da transformação econômica e social dos territórios. Que possamos falar de prevenção, mas também de direitos. Que possamos falar de saúde, mas também de trabalho. Que possamos falar de mulheres, mas também das estruturas que determinam quem cuida e quem é cuidado. E que possamos compreender que uma economia verdadeiramente solidária não pode considerar apenas aquilo que é vendido, comprado ou contabilizado. Existe uma economia invisível que sustenta a vida. Ela acontece quando uma mulher prepara uma refeição, acompanha alguém ao médico, cuida de uma criança, acolhe uma pessoa, cultiva um alimento, organiza sua comunidade ou dedica horas ao trabalho coletivo sem que esse esforço seja devidamente reconhecido.
Essa economia precisa ser vista. Precisa ser valorizada. Precisa ser compartilhada. E precisa fazer parte do projeto de sociedade que queremos construir. Neste Outubro Rosa, fica o nosso convite: Que as mulheres que cuidam também sejam cuidadas. Que o trabalho de cuidado seja reconhecido. Que a saúde seja um direito efetivamente acessível.
E que a Economia Solidária continue construindo territórios onde a vida esteja no centro. Cuidar de si também é um ato de solidariedade. Cuidar coletivamente é construir uma sociedade mais justa.


Anne Guiomar de Sena Silva
Presidenta da UNISOL Bahia

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